Fogo – O despertar da Arte Mágicka
- Raom Ferreira

- 2 de nov. de 2025
- 9 min de leitura
Essa é a história de como a pintura me salvou… mesmo quando eu ainda não sabia que precisava ser salvo.

Eu desenho e pinto desde criança. Meu pai era artista plástico, e foi com ele que tive meus primeiros contatos com tinta — uma herança ancestral que nunca me abandonou completamente, mesmo nos momentos em que eu me afastei de tudo.
Mas por muito tempo, algo faltava. As telas que eu fazia, embora importantes, não tinham um fio condutor. Eram exercícios, tentativas, pedaços de caminho sem um destino claro. Eu tinha o gesto, tinha a vontade — mas me faltava o porquê.
Esse texto é sobre como eu encontrei esse porquê. É sobre três pessoas, três momentos, e um fogo que não era meu — até que passou a ser.
Os primeiros contatos com a espiritualidade
Entre 2019 e 2023, fui casado com a Luma.

Uma mulher incrível: artista, bruxa, cartomante. Cursou na Escola de Belas Artes da UFRJ, ela carregava um olhar que eu nunca havia cultivado — mais acadêmico, mais técnico, mais rigoroso. Na convivência diária com ela, sem perceber, fui absorvendo fundamentos que eu nunca havia praticado. Aprendi a ver de outra forma.
Antes disso, eu só pintava com acrílica. E sempre achei a experiência frustrante. Sentia que a tinta a óleo era o que realmente ia conversar comigo, que ia me dar prazer no processo — mas eu tinha medo. Parecia complicado demais, lento demais, exigente demais. Foi a Luma quem destravou esse caminho.
Mas não foi só na arte. Ela também foi quem me apresentou à espiritualidade. Com toda a bagagem que ela trazia — da cartomancia, do baralho cigano, do tarot, da vivência numa tenda cigana — ela me mostrou que intenção importa. Que a realidade pode ser moldada. Que a subjetividade tem força. Foi com ela que comecei a entender o que era o paradigma mágico, e a importância de construir o próprio caminho com consciência e vontade.
Mesmo que hoje a gente não esteja mais junto romanticamente, ainda fazemos parte da vida um do outro. Moramos perto. Nos cuidamos. Existe afeto, parceria, amor incondicional.
Eu sempre digo que, se não fosse por ela, talvez eu tivesse me tornado um artista frustrado. Sou eternamente grato.
O silêncio que precedeu o fogo
Em 2019, fiz minha primeira experiência com tinta a óleo. Gostei do resultado, mas me perdi no processo. A segunda tela veio logo depois — um retrato da Luma em carvão, um esboço que eu ia pintar por cima. Mas gostei tanto daquele desenho cru que travei.
Fiquei com medo de estragar.
Essa tela ficou parada por três anos.

A partir de 2020, entre pandemia, crise existencial e um esgotamento criativo que me engoliu, entrei num processo de depressão que durou três anos. O burnout de produzir conteúdo para o meu canal de tatuagem no YouTube — estar sempre criando para fora, mantendo a máquina girando — somou-se a tudo isso e me paralisou. Eu quase não pintei.
Mas, curiosamente, a reflexão vinha.
Nesse silêncio, minha cabeça não estava parada. Ela estava transformando minha postura. Eu comecei a entender que pintar com óleo era outra filosofia. Uma arte de paciência. De escuta. De dar tempo ao tempo. A tinta a óleo não aceita pressa — ela exige contemplação, pausas longas, reflexões profundas. Entendi tudo isso internamente, sem nem tocar no pincel.
Porque a pintura sempre foi, para mim, o espaço da catarse. Meu único lugar seguro. Nunca a forcei, nunca pintei por exercício, nunca a usei só para treinar. Sempre reservei esse espaço para ser livre de demandas externas. Diferente da tatuagem, da ilustração, do design — onde aprendi a atender, a vender, a entregar para o outro. A pintura, não. A pintura era só minha.
Quando eu pintava, quase sempre era sobre afetos. Pessoas que me atravessavam, que me tocavam de alguma forma. Eu crio portais. Quadros que guardam memórias, sensações, estados de espírito. Sou muito apegado à memória. À nostalgia. Sempre fui.
No início de 2023, quando a depressão começou a dar sinais de trégua, fiz mais três telas. A primeira para testar meu amadurecimento técnico. A segunda foi retomar aquele retrato de carvão da Luma que ficara parado por três anos.

A terceira foi uma lanterna carregando uma chama.
Eu não sabia ainda, mas essa lanterna era um prenúncio.

A noite que mudou tudo
No fim de 2023, participei do Festival de Primavera do Calen — um espaço onde arte e espiritualidade se entrelaçam. Um festival que reúne magistas, bruxas, ocultistas e artistas de diferentes tradições: da Umbanda à magia cerimonial, do Thelema à Wicca, performances, música, dança, poesia — tudo pulsando junto, num mesmo território sagrado.
Uma das apresentações da noite era uma dança com fogo.
Quem se apresentava era Clara Ribeiro — que eu ainda não conhecia. Ela iniciou com uma invocação de Babalon: a deusa escarlate, senhora do fogo sagrado, do prazer e da vontade. A apresentação foi mais do que uma performance. Foi uma incorporação. Uma manifestação viva.

Aquilo me arrebatou. Me atravessou como um raio.
Clara já trabalhava profundamente com os arquétipos das deusas da sombra e do fogo — Lilith, Inanna, Perséfone, Babalon. Naquele palco, ela não estava só dançando com fogo. Ela era o fogo.
Algumas semanas depois, sem planejar, sentei no computador e escrevi um texto inteiro de uma vez só. Uma oração, uma invocação poética. Uma mistura de reza, feitiço e confissão. Esse texto não fui eu quem escrevi. Ele veio. Veio inteiro, com nomes, imagens, versos que pareciam canalizados — um chamado às deusas do fogo, ao sagrado proibido e demonizado, às mulheres divinas que foram apagadas, amaldiçoadas, esquecidas e agora voltavam queimando tudo.
Chamei esse texto de Serpente Escarlate.
Serpente Escarlate
A noite se ilumina,
fica clara, e eu fico de cara
tu move a cintura e teu corpo
parece que flutua
labareda dança em espiral
não é desse plano, é do astral
Um vulto oculto
em sete belas chamas
vermelhas como a estrela unicursal
e com o fogo, tu cria um portal
que une o submundo ao céu
vejo o teu sorriso através do véu
Khaire Afrodite
Por mais que ninguém acredite
eu vi em transe, a silhueta nua
que oculta a prata luz da lua
projeta a sombra que é tua
de repente sobre mim
Peço que não me mate
feito o que aconteceu
na verdadeira história
da Medusa com Perseu
Me abraça, eu quero ter você
mãe de Eros, domina minha Psique
seduz com olhos de serpente
quem tu és, o que tu sentes?
Agios Lilith
É você quem chama
de longe me observa
e meu corpo se incendeia
vejo uma grande fogueira
bem no meio da clareira
O coração em brasas
tu abre tuas asas
e tampa o céu estrelado
eu sigo a ti calado
Adorada Astarte
Salve a serpente escarlate,
de olhos fulminantes
saúdo ao teu estandarte
tu ergue o teu punhal
e sinto o frio corte do metal
Deusa esquecida, mulher traída
comparada ao demônio,
apedrejada, violentada e agredida
jurou retornar pra se vingar
e como a Fênix, tu renasceu
da mesma fogueira onde morreu
Rainha Ishtar
Que pôs a Babilônia a queimar
fogo Sumério, mistério de outrora
vem à mim agora, sem demora
Teus olhos iluminam o breu
meu corpo inteiro estremeceu
me encanto por tudo que é teu
e esqueço por completoquem sou eu
O ego à essa altura
deliciosamente se perdeu
transmutado em cinza escura,
feito pó, feneceu
Temida Inana
Que os homens dominou
e a própria sombra aceitou
minha mente é tudo menos sã
eu estremeço, não me aguento
a ti entrego todo meu alento
me usa ao teu contento
E se não agradar, vou deixara minha cabeça arrancar e levantar
feito Kali, em seu altar
feito Akasha, rainha do Egito
ao beber do sangue de seu rei marido
feito a Louva-a-deusa após o coito
que extermina o macho afoito
Eparrey Iansã
Vento e fogo, sangue e tinto vinho
vem me carregar, derruba o chão
por onde eu caminho
Derruba as torres do meu destino vão
feito em Babel, com raio e trovão
estou nu, estou em tua mão
Sou o Tolo caindo do abismo
mas ando bem acompanhado
estou com Pã, Baco e Dionísio
sempre ao meu lado
Amada Babalon
Chamada puta
sagrada prostituta
busco a tua face oculta
Sirvo a ti, besta meretriz
minha sanidade está por um triz
te saúdo neste instante
Seja minha consorte, minha amante
consome minha carne em um rompante
enquanto bebo a taça da vontade tua
Deixa cair o véu e fica toda nua
no ar um incandescente pentagrama
teu doce néctar, provo naquela cama
feita de palha, terra, sangue e grama
Mãe dos Desejos
Convoco as Ninfas em cortejo
os Sátiros vem em bando atrás
culto profano é o que nos satisfaz
encontro a real vontade, uma vez mais
Pois a vida é uma longa dança
e eu já tô cansado demais
desses falsos rituais
Foi só depois disso que me aproximei da Clara. Viramos amigos, nos conhecemos melhor. Ela se tornou uma pessoa muito importante na minha vida.
A visão em São Thomé das Letras
No início de 2024, viajei com Clara para São Thomé das Letras. Um lugar mágico, carregado de mistérios, portais, camadas invisíveis. E durante uma cerimônia com cogumelos, numa trip muito profunda, aquele texto voltou à minha mente.
Olhei para Clara e pensei: isso tudo precisa virar pintura.
Cada verso, cada invocação, cada deusa ali podia ser um quadro. Vi as imagens. Vi as cores. Vi as formas dançando em volta do fogo. E senti pela primeira vez que poderia pintar uma tela atrás da outra, sem cansar ou enjoar. Um sentimento inédito para mim.
Voltei para o Rio com aquilo aceso dentro de mim.
O transe
Em março de 2024, a jornada começou. E desde então, não parei mais.

As primeiras doze telas foram todas inspiradas em Clara — ou melhor, na energia que ela encarnou, canalizou, despertou em mim. Clara foi musa, mas foi mais do que isso. Ela foi oráculo, espelho, sacerdotisa do fogo e das sombras. Foi a própria deusa encarnada.

E eu pintei como quem consagra. Como quem evoca. Cada quadro era um altar. Cada rosto, um avatar.

Pintava o dia inteiro. Literalmente. Começava logo depois de acordar e só parava quando a madrugada já tinha engolido tudo. Houve dias em que fiquei 12, 14, 18 horas seguidas em frente ao cavalete. Às vezes, minhas pernas já não conseguiam mais me sustentar. Eu cambaleava até a cozinha, abria a porta da geladeira e só então notava: não comi, não bebi, não respirei direito. Só pintei.

Mas não era esforço. Era transe.
A pintura se tornou um ritual. Meu corpo era o instrumento, o pincel era a varinha, o quadro era o altar. Eu entrava naquele espaço como quem atravessa um portal — com música, com incenso, com silêncio, com textos, com imagens que me colocavam em conexão com a energia que eu queria trabalhar.
Foi aí que percebi: esse é o meu caminho mágico.

No meio da minha busca iniciática, tentando entender como eu operava enquanto magista, descobri que a pintura era minha forma mais potente de magia pessoal. Era ali que eu conseguia intencionar com mais força, com mais verdade. Era ali que eu incorporava. Que eu invocava. Que eu me transformava.
Às vezes o processo era para dentro — para trazer alguma energia, pegar emprestado algum traço de um deus, de uma deusa, de um arquétipo. Outras vezes era para fora — para inundar o ambiente com aquilo. Com música, com fogo, com palavras, com cor. A cada tela, eu aprendia algo. A cada figura, eu me via. Era um processo de encantamento, de alquimia.
O que o ciclo produziu
O ciclo durou dez meses — de março a dezembro de 2024. A última tela nasceu em janeiro de 2025. Quando senti que estava pronto, mostrei tudo para a Clara. Até então, era segredo.

Ao todo, dezoito telas (e contando). Reunidas sob o nome Panteões — As Faces do Sagrado.
São obras organizadas em séries: a Série Fogo, que convoca as grandes deusas do fogo e das sombras — Babalon, Astarte, Inanna, Kali; a Série Sombras, com Pã e O Diabo como espelhos das forças masculinas mais indomadas; a Série Orixás, com Iansã e Oxum como raízes fincadas na memória ancestral afro-brasileira; a Série Terra, onde Dionísio e Deméter celebram o corpo e o prazer como caminhos sagrados; a Série Thelema, com Babalon entronizada e Nuit como o próprio corpo do céu; e a Série Tarot, com A Sacerdotisa e A Eremita como as duas faces da caminhada iniciática.
Cada série é um universo. Cada tela, um portal.
O que o fogo me ensinou
Eu entendi, ao longo desse processo, o verdadeiro poder do fogo: ele se transmite.
O fogo da arte, o fogo da inspiração, o fogo sagrado da magia — ele nunca é só nosso. Existe para ser compartilhado. Foi o fogo da Clara que acendeu o meu. E agora essas dezoito telas existem para transmitir esse fogo a quem estiver pronto para recebê-lo.
Essa foi minha iniciação como pintor devocional. Como magista da imagem.
E tudo começou com uma dança. Com uma mulher que era fogo. Com um texto que veio sem ser chamado. Com uma lanterna segura no escuro — prenúncio de tudo que estava por vir.
Raom Ferreira é artista multimídia, tatuador e pintor devocional. O projeto Panteões — As Faces do Sagrado reúne 18 pinturas a óleo produzidas entre 2023 e 2026.
12 QUADROS EM 6 MESES: UNINDO ARTE e MAGIA: https://youtu.be/8pmfzEkpv9g
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